sábado, 18 de Outubro de 2008

A vida não é isto

O seguinte texto foi escrito pela Nikky no seu blog Vinte e uma Gramas.
Publico aqui este texto, tendo em mente a C.
O texto foi obviamente publicado com autorização da respectiva autora.

Ouço vezes demais pessoas que dizem que a vida é senão isto, com a voz carregada de fado e fatalismo e com olhos despejados.
Nestes momentos, peço a Deus, ou ao que haja de mais parecido com Ele, aos demónios que nos habitam ou a uma qualquer espécie de consciência, que nunca me façam deixar de querer. De querer mais. De ver que há mais e que a vida não é só isto.
Que uma coisa é estar vivo mas outra, muito diferente, é viver.
Que eu nunca acorde sem saber o que desejo.
Que eu nunca esteja entre aqueles que nunca dormem mais ou menos do que acham que devem, nunca bebem demais ou nunca levantam a voz.
Que eu cruze muitas vezes a linha que me separa da loucura. E que me pergunte todos os dias se ela está logo ali à frente, mesmo ali ao lado ou se estou em cima dela.
Que eu nunca seja conhecida pela sensatez ou pela disciplina.
Que eu salte em todos os abismos, que me vire do avesso e me reinvente todos os dias sem nunca me perder de mim.
Que o meu coração me acompanhe sempre nas mãos e nunca por trás de muralhas.
Que eu veja e conheça tudo dentro de mim. Mesmo o que dói. Mesmo o que incomoda. Mesmo o que magoa. Mas que nunca perca a capacidade de me surpreender.
Que eu nunca esteja entre os que são felizes de fato de treino ao domingo num centro comercial, rodeada de uma família que não conheço, fabricada por obrigações, por convenções ou por medo de estar sozinha. Esses que olham entediados as suas vidas programadas, que dão passos por lhes dizerem que esse é o próximo lógico e que se convencem com mais ou menos sucesso que a vida deve ser só isto. Que isto é melhor que nada. Por isso talvez seja mesmo apenas isto.
Que eu nunca precise enganar-me com complementos, com o que quer que seja que ajuda a fugir à brutal realidade das coisas.
Que eu nunca viva misturada, cega, impenetrável ou dentro de histórias fabricadas para me enganar, proteger ou desculpar.
Que eu nunca espere a sucessão dos dias após as noites e das noites após os dias, vendo que nada acontece e perdendo a insensata esperança de esperar que algo aconteça.
Que eu nunca seja um entre aqueles que vivem rituais determinados por relógios impiedosos feitos de aço implacável que deixaram crescer por dentro e que apenas estão presos ao mundo e à vida por uma espécie de movimento elástico da alma que permite que esta se afaste para depois voltar. Que eu nunca perca a minha.
Que eu tenha sempre um centro onde me fixar e que o meu norte nunca passe a sul.
Porque a vida de verdade, desmembra-nos. Traz o colapso. O caos. Viver é bem mais difícil do que estar vivo, que para isso basta respirar.
E eu da vida quero tudo. O melhor e o pior. O resto, é-me indiferente.

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